terça-feira, outubro 02, 2007

Os tribunais e a estatistica

À 5 anos atrás houve um caso que dá a pensar.

A britânica Sally Clark foi condenada a pena de prisão por um argumento de natureza estatistica feita por Roy Meadow.
Sally Clark foi considerada responsável pela morte dos dois filhos.
O médico ouvido pelo tribunal disse que a probabilidade de duas crianças dos mesmos pais terem morrido de morte súbita é de 1 para 73 milhões, ele chegou a esse valor elevando simplesmente ao quadrado a probabilidade de uma criança morrer de morte súbita. Como é óbvio esse argumento é um disparate tendo em conta que só se pode elevar essa probabilidade ao quadrado se os dados forem independentes. Ora neste caso não há independência, tendo em conta que o motivo de morte súbita pode ser de natureza genética...

O presidente da sociedade de Estatistica do Reino Unido exigio que sejam chamados Estatisticos sempre que sejam usados argumentos de natureza estatistica.
Se pensarmos bem em qualquer processo juridico joga-se com probabilidades.

È de facto impressionante como a matemática, essa ciência nobre, supostamente o reino da racionalidade é usada para todo o tipo de disparates. Li à algumas semanas sobre um estudo que indica que em grande parte dos estudos ciêntificos a matemática é usada para aumentar a aparente seriedade de um estudo, ou seja de forma arbitrária, para enfeitar ou pior de forma errática...

Quase me esquecia, Sally Clark foi absolvida da acusação em 2003...

5 Bitaites:

bomportugues mandou o bitaite...

"Há algum tempo" é com "H". Cometes várias vezes o erro de escrever "À" em vez de "Há"...

Anónimo mandou o bitaite...

«Ora neste caso não há independência, tendo em conta que o motivo de morte súbita pode ser de natureza genética...», ou ambiental, já que as duas crianças terão sido educadas em ambientes muito parecidos.

Outro problema, assumindo um perfil genético ou ambiental que predisponha para a morte subita a probabilidade de morte já não seria de 1 em 73 milhões, para calcular essa probabilidade precisamos de uma probabilidade condicionada que poderia ser calculada pela regra de Bayes desde que soubessemos:

- a probabilidade de uma criança que tenha morrido desta causa ter esse aspecto( atenção agora é ao contrário)
- A probabilidade de uma criança que não tenha morrido ter esse aspecto.

marisa cruz mandou o bitaite...

e mais,
todos os resultados obtidos pela genética forense, que tanta gente condena e absolve, são simplesmente cálculos de probabilidades.

Paulo Alemão mandou o bitaite...

@ bomportugues

Reconheço que o erro de usar ou não usar o "h" é um erro bastante frequente. Na frase citada até tive em dúvida e escolhi a opção errada...

Paulo Alemão mandou o bitaite...

@ anónimo

Penso que a questão da independencia ou dependencia dos dados é uma das principais fontes de erro nos estudos de natureza estatistica.

Li há algum tempo (acho que agora está certo :)) que existem gajos cujo passatempo é calcular coeficientes de correlação de fenómenos que nada tem a haver um com o outro e demonstrar assim que ao contrário de facto tem.
Um exemplo será por exemplo correlacionar a evolução da taxa de desemprego e a evolução da temperatura média nos ultimos 10 anos num país (que supomos que subiram ambos da mesma maneira). O coeficiente de correlação será bastante alto, o que leva a concluir que ambas as coisas estão interligadas o que é óbviamente um disparate.
Este exemplo pode dar uma indicação de como os estudos estatisticos podem induzir em erro...