sexta-feira, dezembro 23, 2005

Um pouco de cultura no fechar do pano

Discurso de aceitação do Prémio Nobel da Literatura 2005
Harold Pinter
Nobelprize.org

Em 1958, escrevi o seguinte:
«Não há grandes diferenças entre a realidade e a ficção, nem entre o
verdadeiro e o falso. Uma coisa não é necessariamente ou verdadeira ou
falsa; pode ser ao mesmo tempo verdade e mentira».
Creio que estas afirmações ainda fazem sentido, e ainda se aplicam à
exploração da realidade através da arte. Assim, como escritor, mantenho-as,
mas como cidadão não posso; como cidadão tenho de perguntar: Que é verdade?
Que é mentira?
A verdade na arte dramática é sempre esquiva. Nunca a encontramos
completamente, mas a busca por ela é compulsiva. A busca é claramente o que
motiva o empenho. A busca é a tua tarefa. Muitas vezes, tropeçamos com a
verdade na escuridão, chocando com ela ou vislumbrando uma imagem ou uma
forma que parece corresponder à verdade, frequentemente sem nos darmos conta
disso. Mas a verdade real é que na arte dramática não há tal coisa como uma
verdade única. Há muitas. Estas verdades desafiam­-se mutuamente, recusam­-se
mutuamente, reflectem-se mutuamente, ignoram-se mutuamente, provocam­-se
mutuamente, são cegas umas em relação às outras. Às vezes, sentimos que
temos a verdade de um momento na mão, então escapa­-se entre os nossos dedos
e perde­-se.
Perguntaram-me com frequência como nascem as minhas peças. Não sei dizê­-lo.
Como também não posso resumir as minhas peças, a não ser para dizer que foi
isto o que aconteceu. Isso é o que elas dizem. Isso é o que elas fizeram.
A maior parte das peças são geradas por uma frase, uma palavra ou uma
imagem. A palavra é com frequência rapidamente seguida pela imagem. Darei
dois exemplos de duas frases que apareceram na minha cabeça do nada,
seguidas por uma imagem, seguidas por mim.
As peças são The homecoming e Old times. A primeira frase de The homecoming
é «Que fizeste com a tesoura?» A primeira frase de Old times é «Escuro».
Em ambos os casos, não tinha mais informação.
No primeiro caso alguém estava, obviamente, à procura de uma tesoura e
perguntava pelo seu paradeiro a alguém de quem suspeitava que provavelmente
a tinha roubado. Mas eu, de alguma maneira, sabia que à pessoa interrogada
pouco lhe importava a tesoura ou, já agora, o interrogador.
"Escuro", tomei como a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma
mulher, e era a resposta a uma pergunta. Em ambos os casos vi­-me compelido a
dedicar­-me ao assunto. Isto ocorreu visualmente, numa muito lenta graduação,
da sombra para a luz.
Sempre começo uma obra chamando aos personagens A, B e C.
Na peça que se tornou The Homecoming, vi um homem entrar numa sala austera e
fazer a sua pergunta a um homem mais jovem sentado num sofá feio a ler um
jornal de corridas de cavalos. De alguma forma suspeitava que A era um pai e
que B era seu filho, mas não tinha provas. Isto foi, no entanto, confirmado
pouco depois quando B (que depois seria Lenny ) disse a A (que depois seria
Max), «Pai, importas­-te que mude de assunto? Quero perguntar­-te uma coisa. O
jantar que tivemos antes, como se chama? Como o chamas tu? Por que não
compras um cão? És um cozinheiro de cães. A sério. Pensas que estás a
cozinhar para cães». Assim, como B chama "Pai" a A, pareceu­-me razoável
assumir que eram pai e filho. E havia também claramente o cozinheiro e a sua
comida não parecia ser muito valorizada. Queria isto dizer que não havia uma
mãe? Não sabia. Mas, como disse a mim mesmo então, os nossos princípios
nunca sabem os nossos fins.
"Escuro". Uma grande janela. Um céu ao entardecer. Um homem, A (que depois
seria Deeley) e uma mulher, B (que depois seria Kate) sentados com
bebidas. «Gorda ou magra», pergunta o homem. De quem falam? Mas então vejo,
de pé junto à janela, uma mulher, C (que depois seria Anna), alumiada por
uma luz diferente, de costas para eles, com o cabelo escuro.
É um momento estranho, o momento de criar personagens que até esse momento
não tinham tido existência. O que se segue é irregular, vacilante, mesmo
alucinatório, ainda que por vezes possa ser uma avalanche imparável. A
posição do autor é esquisita. Em certo sentido, não é bem-vindo pelas
personagens. As personagens resistem­-lhe, não é fácil conviver com elas, são
impossíveis de definir. Certamente não podemos dar­-lhes ordens. Até certo
ponto, jogamos um jogo interminável com elas, ao gato e ao rato, ao adivinha
quem é [blind man's buff], às escondidas. Mas finalmente descobrimos que
temos pessoas de carne e osso nas nossas mãos, pessoas com uma vontade e com
uma sensibilidade individual próprias, feitas de partes componentes que
somos incapazes de mudar, manipular ou distorcer.
Assim, a linguagem na arte continua a ser uma ambiciosa transação, umas
areias movediças, um trampolim, uma poça gelada que pode ceder sob os pés,
os do autor, em qualquer momento.
Mas, como disse, a busca da verdade nunca pode parar. Não pode ser suspensa,
não pode ser adiada. Tem que ser enfrentada, ali mesmo, no acto.
O teatro político apresenta uma variedade totalmente diferente de problemas.
Há que evitar os sermões a todo o custo. A objectividade é essencial. Deve­-
se deixar que as personagens respirem por sua própria conta. O autor não
pode confiná­-las nem constringi­-las para satisfazer o seu próprio gosto,
disposição ou preconceitos. Tem de estar preparado para se aproximar delas
de uma variedade de ângulos, de um sortido amplo e desinibido de
perspectivas, talvez, ocasionalmente, tomá-las de surpresa, mas apesar de
tudo, dando-lhes a liberdade para ir aonde desejem. Isto nem sempre
funciona. E a sátira política, evidentemente, não adere a nenhum destes
preceitos, na verdade, faz precisamente o contrário, o que é a sua autêntica
função.
Na minha peça The birthday party creio que permito o funcionamento de um
amplo leque de opções numa densa floresta de possibilidades antes de
finalmente me concentrar num acto de subjugação.
Mountain Language não aspira a essa amplitude de funcionamento. Permanece
brutal, curta e feia. Mas os soldados na peça sim divertem­-se com aquilo. Um
por vezes esquece­-se que os torturadores se aborrecem facilmente. Precisam
de se rir de vez em quando para manter o ânimo. Isto foi, evidentemente,
confirmado pelos acontecimentos em Abu Ghraib em Bagdade. Mountain language
dura só 20 minutos, mas poderia continuar hora após hora, uma e outra e
outra vez, o mesmo padrão repetido de novo e de novo, uma e outra vez, hora
após hora.
Ashes to ashes, por outro lado, dá-me a impressão de ter lugar debaixo de
água. Uma mulher que se afoga, a sua mão que emerge das ondas, que se afunda
e desaparece, procurando outras, mas não encontrando ali ninguém, seja acima
seja debaixo de água, encontrando unicamente sombras, reflexos, boiando; a
mulher uma figura perdida numa paisagem de naufrágio, uma mulher incapaz de
escapar do destino que parecia pertencer apenas a outros.
Mas, como eles morreram, ela também deve morrer.
A linguagem política, tal como é usada pelos políticos, não se adentra em
nenhum destes territórios dado que a maioria dos políticos, segundo a
evidência disponível, não estão interessados na verdade mas no poder e na
manutenção desse poder. Para manter esse poder é essencial que as pessoas
permaneçam na ignorância, que vivam na ignorância da verdade, mesmo da
verdade sobre as suas próprias vidas. O que nos rodeia é portanto um enorme
entrelaçado de mentiras, das quais nos alimentamos.
Como cada indivíduo aqui sabe, a justificação para a invasão do Iraque era
que Saddam Hussein possuía um perigosíssimo arsenal de armas de destruição
em massa, algumas das quais podiam ser lançadas em 45 minutos, provocando
uma apavorante devastação. Asseguraram-nos que isso era verdadeiro. Não era
verdadeiro. Disseram-nos que o Iraque tinha uma relação com a Al Qaeda e que
partilhava a responsabilidade pela atrocidade de 11 de Setembro de 2001 em
Nova York. Asseguraram-nos que isto era verdadeiro. Não era verdadeiro.
Disseram-nos que o Iraque ameaçava a segurança do mundo. Asseguraram-nos que
era verdadeiro. Não era verdadeiro.
A verdade é algo totalmente diferente. A verdade tem a ver com a forma como
os Estados Unidos entendem o seu papel no mundo e como decide encarná-lo.
Mas antes de voltar ao presente, gostaria de olhar o passado recente, refiro-
me à política externa dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra
Mundial. Creio que é nossa obrigação submeter este período a pelo menos
algum tipo de escrutínio, ainda que limitado, que é tudo o que o tempo nos
permitirá aqui.
Todos sabem o que aconteceu na União Soviética e por toda a Europa de Leste
durante o período do pós­-guerra: a brutalidade sistemática, as múltiplas
atrocidades, a implacável supressão do pensamento independente. Tudo isto
foi amplamente documentado e verificado.
Mas a minha contenda aqui é que os crimes dos EUA no mesmo período só foram
registrados de forma superficial, não digamos já documentados, ou admitidos,
ou reconhecidos sequer como crimes. Creio que isto deve ser encarado e que a
verdade [sobre este assunto] tem muito a ver com a situação em que se
encontra o mundo actualmente. Embora limitadas, até certo ponto, pela
existência da União Soviética, as acções dos Estados Unidos por todo o mundo
deixaram claro que tinham concluído que tinham carta branca para fazer o que
quisessem.
A invasão directa de um estado soberano nunca foi, na verdade. o método
favorito dos Estados Unidos. Na maioria dos casos, preferiram o que
descreveram como "conflito de baixa intensidade". Conflito de baixa
intensidade significa que milhares de pessoas morrem, mas mais lentamente do
que se lançássemos uma bomba sobre eles de um só golpe. Significa que
infectamos o coração do país, que estabelecemos um tumor maligno e
observamos o desenvolvimento da gangrena. Quando o povo foi submetido - ou
moido a paus - o que vem a ser o mesmo - e os nossos próprios amigos, os
militares e as grandes corporações, se sentam confortavelmente no poder,
vamos à frente da câmara e dizemos que a democracia triunfou. Isto foi um
lugar comum na política externa dos Estados Unidos durante os anos a que me
refiro.
A tragédia da Nicarágua foi um caso muito significativo. Escolhi­ apresentá­­­-
lo aqui como um exemplo potente de como os Estados Unidos vêem o seu papel
no mundo, tanto então como agora.
Estive presente numa reunião na embaixada dos EUA em Londres no final dos
anos oitenta.
O Congresso de Estados Unidos estava prestes a decidir se dar mais dinheiro
aos Contras para a sua campanha contra o estado da Nicarágua. Eu era um
membro de uma delegação que vinha falar em nome da Nicarágua, mas a pessoa
mais importante nesta delegação era o Padre John Metcalf. O líder do grupo
dos EUA era Raymond Seitz (então número dois do embaixador, mais tarde
embaixador ele mesmo). O Padre Metcalf disse: «Senhor, dirijo uma paróquia
no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro
de saúde, um centro cultural. Vivíamos em paz. Há alguns meses uma força dos
Contra atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o centro de saúde, o
centro cultural. Violaram as enfermeiras e as professoras, assassinaram os
médicos, da forma mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor,
peça que o governo dos EUA retire o seu apoio a esta revoltante actividade
terrorista».
Raymond Seitz tinha muito boa reputação como homem racional, responsável e
altamente sofisticado. Era grandemente respeitado nos círculos diplomáticos.
Escutou, fez uma pausa, e depois falou com alguma gravidade. «Pai»,
disse, «deixe-me dizer-lhe algo. Na guerra, as pessoas inocentes sofrem
sempre». Houve um frio silêncio. Olhamos para ele. Ele não piscou.
As pessoas inocentes, de facto, sempre sofrem.
Finalmente, alguém disse: «Mas neste caso as "pessoas inocentes" foram
vítimas de uma horrível atrocidade subvencionada pelo seu governo, uma entre
muitas. Se o Congresso concede aos Contras mais dinheiro, mais atrocidades
desta tipo terão lugar. Não é assim? Não é, portanto, o seu governo culpado
de apoiar actos de assassinato e destruição contra os cidadãos de um estado
soberano?»
Seitz manteve­-se imperturbável. «Não estou de acordo que os factos, tal como
foram apresentados, apoiem as suas afirmações», disse.
Enquanto abandonávamos a embaixada, um assessor estado­-unidense disse­-me que
apreciava as minhas peças. Não respondi.
Devo recordar-lhes que o então presidente, Reagan, fez a seguinte
declaração: «Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores».
Os Estados Unidos apoiaram a brutal ditadura de Somoza na Nicarágua durante
40 anos. O povo nicaraguano, liderado pelos sandinistas, derrocou este
regime em 1979, uma impressionante revolução popular.
Os sandinistas não eram perfeitos. Tinham a sua quota parte de arrogância e
a sua filosofia política continha um certo número de elementos
contraditórios. Mas eram inteligentes, racionais e civilizados. Propuseram-
se estabelecer uma sociedade estável, decente e plural. A pena de morta foi
abolida. Centenas de milhares de camponeses acometidos pela pobreza foram
resgatados dos mortos. Mais de 100.000 famílias receberam títulos de
propriedade sobre terras. Foram construídas duas mil escolas. Uma notável
campanha educativa reduziu o analfabetismo no país a menos de um sétimo.
Foram estabelecidos uma educação e um serviço de saúde gratuitos. A
mortalidade infantil foi reduziu em um terço. A poliomielite foi erradicada.
Os Estados Unidos denunciaram estas realizações como subversão
marxista/leninista. Do ponto de vista do governo dos EUA, estava-se a
estabelecer um exemplo perigoso. Se fosse permitido à Nicarágua estabelecer
normas básicas de justiça social e económica, se lhe fosse permitido subir
os níveis de saúde e educação e alcançar a unidade social e o auto­-respeito
nacional, os países vizinhos poriam as mesmas questões e fariam o mesmo.
Havia evidentemente nessa época uma feroz resistência ao status quo em El
Salvador.
Falei anteriormente sobre "um entrelaçado de mentiras" que nos rodeia. O
presidente Reagan descrevia habitualmente a Nicarágua como um "calaboiço
totalitário". Isto foi tomado de forma geral pelos meios de comunicação, e
certamente pelo governo britânico, como um comentário correcto e justo. Mas,
na verdade, não havia registro de esquadrões da morte sob o governo
sandinista. Não havia registro de torturas. Não havia registro de uma
brutalidade sistemática ou oficial por parte dos militares. Nenhum sacerdote
foi jamais assassinado na Nicarágua. Havia, na veradde, três sacerdotes no
governo, dois jesuítas e um missionário Maryknoll. Os calaboiços
totalitários estavam na realidade ao lado, em El Salvador e na Guatemala. Os
Estados Unidos tinham feito cair o governo democraticamente eleito da
Guatemala em 1954 e estima­-se que mais de 200.000 pessoas tinham sido
vítimas das sucessivas ditaduras militares.
Seis dos mais eminentes jesuítas do mundo foram brutalmente assassinados na
Universidade da América Central em San Salvador em 1989 por um batalhão do
regimento Alcatl treinado em Fort Benning, Geórgia, EUA. Esse homem
extremamente corajoso, o Arcebispo Romero, foi assassinado enquanto dizia a
missa. Estima-se que morreram 75.000 pessoas. Por que foram assassinadas?
Foram assassinadas porque acreditavam que uma vida melhor era possível e que
devia ser realizada. Essa crença qualificava­-os imediatamente como
comunistas. Morreram porque se atreveram a questionar o status quo, a
interminável situação de pobreza, a doença, a degradação e a opressão que
tinham recebido como herança.
Os Estados Unidos finalmente fizeram cair o governo sandinista. Levou alguns
anos e uma resistência considerável, mas uma perseguição económica
implacável e 30.000 mortos finalmente minaram o ânimo do povo nicaraguano.
Estavam exaustos e acometidos pela pobreza uma vez mais. Os casinos voltaram
ao país. A saúde e a educação gratuitas acabaram. As grandes empresas
voltaram para valer. A "democracia" tinha triunfado.
Mas esta "política" não estava, de modo nenhum, restrita à América Central.
Foi conduzida por todo o mundo. Era interminável. E é como se nunca se
tivesse passado.
Os Estados Unidos apoiaram e em muitos casos engendraram cada ditadura
militar de direita no mundo depois do final da Segunda Guerra Mundial.
Refiro-me a Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia,
Filipinas, Guatemala, El Salvador, e, claro, Chile. O horror que os Estados
Unidos infligiram ao Chile em 1973 não poderá ser nunca purgado nem
esquecido.
Centenas de milhares de mortes tiveram lugar em todos estes países. Tiveram
lugar? E são elas em todos os casos atribuíveis à política externa dos EUA?
A resposta é sim, tiveram lugar e são atribuíveis à política externa dos
EUA. Mas vocês não o saberiam.
Nunca aconteceu. Nada alguma vez aconteceu. Mesmo enquanto acontecia não
estava a acontecer. Não importava. Não tinha interesse. Os crimes dos
Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, imorais, cruéis, mas muito
poucas pessoas falaram efectivamente deles. É preciso reconhecer isto aos
Estados Unidos. Exerceram uma manipulação bastante clínica do poder em todo
o mundo enquanto se disfarçavam como uma força ao serviço do bem universal.
É um exercício de hipnose brilhante, até espirituoso, altamente bem sucedido.
Digo-vos que os Estados Unidos são sem dúvida o maior espectáculo ambulante.
Por brutais, indiferentes, desdenhosos e implacáveis que sejam, são também
muito inteligentes. Como vendedores não têm rival, e a mercadoria que melhor
vendem é o amor próprio. Trata­-se de um vencedor. Escutem todos os
presidentes dos Estados Unidos na televisão dizer as palavras, "o povo
americano", como na frase "digo ao povo americano que é hora de rezar e
defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano que confie
no seu presidente na acção que vai empreender em benefício do povo
americano".
É uma estratagema brilhante. A linguagem é efectivamente utilizada para
manter o pensamento descansado. As palavras "o povo americano" produzem uma
almofada de tranquilidade verdadeiramente voluptuosa. Não precisamos de
pensar. Simplesmente recostemo­-nos na almofada. A almofada pode estar a
sufocar a nossa inteligência e as nossas capacidades críticas mas é muito
confortável. Isto não se aplica, evidentemente, aos 40 milhões de pessoas
que vivem abaixo da linha de pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres
prisioneiros no vasto gulag de prisões, que se estende ao longo dos Estados
Unidos.
Estados Unidos já não se incomodam com os conflitos de baixa intensidade.
Não vêem nenhum interesse em ser reticente ou dissimulado. Põem as suas
cartas na mesa sem medo nem favor. Simplesmente está­-se marimbando para as
Nações Unidas, para a lei internacional ou a discordância crítica, que
encara como impotente e irrelevante. Também tem o seu próprio cãozinho que
ladra seguindo atrás pela trela, a patética e indolente Grã-Bretanha.
O que aconteceu à nossa sensibilidade moral? Chegamos a ter alguma? O que
significam estas palavras? Será que se referem a um termo muito raramente
utilizado nestes dias - consciência? Uma consciência que tem a ver não só
com os nossos próprios actos, mas também com a nossa responsabilidade
partilhada nos actos dos outros? Está tudo isto morto? Olhem para a Baía de
Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação durante três anos, sem
representação legal ou o devido processo, tecnicamente detidos para sempre.
Esta estrutura totalmente ilegítima é mantida em desafio à Convenção de
Genebra. Não só é tolerada, mas mal é considerada pelo que se chama
a "comunidade internacional". Esta ultraje criminoso está a ser cometido por
um país, que se declara a si mesmo como "o líder do mundo livre". Será que
pensamos nos habitantes da Baía de Guantánamo? O que dizem os meios de
comunicação sobre eles? Aparecem ocasionalmente - uma pequena menção na
página seis. Eles foram consignados
a uma terra de ninguém da qual, na verdade, podem nunca mais voltar. No
momento, muitos estão em greve de fome, a ser alimentados à força, incluídos
os residentes britânicos. Não há subtilezas nestes procedimentos de
alimentação. Nem sedativos nem anestésicos. Só um tubo inserido no teu nariz
e dentro da tua garganta. Tu vomitas sangue. Isto é tortura. Que disse o
secretário britânico dos negócios estrangeiros sobre isto? Nada. Que disse o
primeiro­-ministro britânico sobre isto? Nada. Por que não? Porque os Estados
Unidos disseram: criticar a nossa conduta na Baía de Guantánamo constitui um
acto pouco amistoso. Ou estais connosco ou contra nós. Assim, Blair cala­-se.
A invasão de Iraque foi um acto bandido, um acto de evidente terrorismo de
estado, demonstrando um desprezo absoluto pelo conceito de lei
internacional. A invasão foi uma acção militar arbitrária baseada numa série
de mentiras atrás de mentiras e numa grosseira manipulação dos meios de
comunicação e, portanto, do publico; um acto visando consolidar o controle
militar e económico dos Estados Unidos sobre o Médio Oriente disfarçado -
como último recurso - tendo todas as outras justificações caído por si
mesmas - de libertação. Uma formidável afirmação de força militar
responsável pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas
inocentes.
Levámos tortura, bombas de fragmentação, urânio empobrecido, inumeráveis
actos de assassinato aleatório, miséria, degradação e morte ao povo
iraquiano e chamamos a isso "levar a liberdade e a democracia ao Médio
Oriente".
Quantas pessoas é preciso matar antes de se estar qualificado para ser
descrito como um assassino em massa e um criminoso de guerra? Cem mil? Mais
do que suficiente, pensaria eu. Por isso, é justo que Bush e Blair sejam
levados perante o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Mas Bush foi
esperto. Não ratificou o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Por isso,
se algum soldado ou, já agora, político americano se achar no banco dos
réus, Bush avisou que enviará os marines. Mas Tony Blair ratificou o
Tribunal e está portanto disponível para a acusação. Podemos proporcionar ao
Tribunal o seu endereço se estiver interessado. É o número 10 de Downing
Street, Londres.
A morte neste contexto é irrelevante. Ambos, Bush e Blair colocam a morte
bem longe, nas contas atrasadas. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos
pelas bombas e mísseis americanos antes de a insurgência iraquiana ter
começado. Estas pessoas não têm importância. As suas mortes não existem. São
vazios. Nem sequer estão registradas como estando mortas. «Não fazemos
contagem de corpos», disse o general americano Tommy Franks.
No início da invasão foi publicada na primeira página dos jornais britânicos
uma fotografia de Tony Blair beijando a bochecha de um rapazinho
iraquiano. «Um criança agradecida» dizia a legenda. Uns dias depois apareceu
uma história com uma fotografia, numa página interior, de outro rapaz de
quatro anos sem braços. A sua família tinha sido explodida por um míssil.
Ele foi o único sobrevivente. «Quando terei os meus braços de volta?»
perguntou. A história foi deixada cair. Bem, Tony Blair não o segurava nos
seus braços, nem o corpo de qualquer outra criança mutilada, nem corpo de
qualquer cadáver ensanguentado. O sangue é sujo. Suja a tua camisa e a tua
gravata quando estás a fazer um discurso sincero na televisão.
Os 2.000 americanos mortos são um embaraço. São transportados para as suas
tumbas na escuridão. Os funerais são discretos, a salvo. Os mutilados
apodrecem nas suas camas, alguns para o resto das suas vidas. Assim, os
mortos e os mutilados apodrecem ambos, em diferentes tipos de tumbas.
Eis um extracto de um poema de Pablo Neruda: Explico Algumas Coisas:
E uma manhã tudo estava ardendo
e uma manhã as fogueiras
saíam da terra
devorando seres,
e desde então fogo,
pólvora desde então,
e desde então sangue.
Bandidos com aviões e com mouros,
bandidos com alianças e duquesas,
bandidos com frades negros abençoando
vinham pelo céu a matar crianças,
e pelas ruas o sangue das crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças
Chacais que o chacal recusaria,
pedras que o cardo seco morderia cuspindo,
víboras que as víboras odiariam!
Frente a vós vi o sangue
de Espanha levantar-se
para afogar-vos numa só onda
de orgulho e de facas!
Generais
traidores:
olhai a minha casa morta,
olhai a Espanha quebrada:
mas de cada casa morta sai metal ardendo
em vez de flores,
mas de cada vão de Espanha
sai a Espanha,
mas de cada criança morta sai uma espingarda com olhos,
mas de cada crime nascem balas
que vos acharão um dia o lugar
do coração.
Perguntareis por que a sua poesia
não nos fala do sonho, das folhas,
dos grandes vulcões do seu país natal?
Vinde ver o sangue pelas ruas,
vinde ver
o sangue pelas ruas,
vinde ver o sangue
pelas ruas!
Deixem­-me tornar claro que citando o poema de Neruda não estou de modo
nenhum a comparar a República Espanhola com o Iraque de Saddam Hussein. Cito
Neruda porque em nenhum outro lugar da lírica contemporânea li uma descrição
tão visceral e poderosa do bombardeamento de civis.
Disse antes que os Estados Unidos estão agora a ser totalmente francos ao
pôr as suas cartas na mesa. Esse é o caso. A sua política oficial declarada
é agora definida como "domínio de espectro total". Este não é o meu termo, é
o deles. "Domínio de espectro total" quer dizer controle da terra, mar, ar e
espaço e todos os seus recursos.
Os Estados Unidos ocupam agora 702 bases militares por todo o mundo em 132
países, com a honrosa excepção da Suíça, claro. Não sabemos muito bem como
chegaram lá, mas o facto é que estão lá.
Os Estados Unidos possuem 8.000 cabeças nucleares activas e operacionais.
Duas mil estão em alerta permanente, prontas a serem lançadas 15 minutos
após aviso. Estão a desenvolver novos sistemas de força nuclear, conhecidos
como destruidores de bunkeres [bunk busters]. Os britânicos, sempre
cooperativos, estão a planear substituir o seu próprio míssil nuclear, o
Trident. A quem, pergunto-me, estão a apontar? A Osama Bin Laden? A ti? A
mim? A Joe Dokes? China? Paris? Quem sabe? O que sim sabemos é que esta
loucura infantil - a posse e a ameaça de uso de armas nucleares - está no
cerne da actual filosofia política dos Estados Unidos. Devemos recordar a
nós mesmos que os Estados Unidos estão numa permanente postura militar e não
mostram sinais de a relaxar.
Muitos milhares, se não milhões, de pessoas nos próprios Estados Unidos
estão manifestamente enojados, envergonhados e zangados pelas acções do seu
governo, mas tal como estão as coisas não são uma força política coerente -
ainda. Mas a ansiedade, a incerteza e o medo que podemos ver a crescer
diariamente nos Estados Unidos não é provável que diminua.
Sei que o presidente Bush tem muitos escritores de discursos competentes,
mas gostaria de oferecer­-me como voluntário para o emprego. Proponho o
seguinte breve discurso que ele pode fazer na televisão à nação. Vejo­-o
solene, com o cabelo cuidadosamente penteado, sério, confiante, sincero,
frequentemente sedutor, por vezes empregando um sorriso irónico,
curiosamente atraente, um autêntico macho.
"Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. O meu Deus é bom. O Deus de Bin
Laden é mau. O seu é um mau Deus. O Deus de Saddam era mau, só que ele não
tinha um. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Nós não cortamos as
cabeças das pessoas. Nós acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou
bárbaro. Eu sou o líder democraticamente eleito de uma democracia amante da
liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Ministramos uma electrocução
compassiva e uma compassiva injecção letal. Somos uma grande nação. Eu não
sou um ditador. Ele é. Eu não sou um bárbaro. Ele é. E ele é. Todos eles
são. Eu possuo autoridade moral. Vêem este punho? Esta é a minha autoridade
moral. E não o esqueçam".
A vida de um escritor é extremamente vulnerável, quase uma actividade nua.
Não temos que chorar por isso. O escritor faz a sua eleição e fica colado a
ela. Mas é verdadeiro dizer que estamos expostos a todos os ventos, algum
deles certamente gelados. Estás por tua conta, sobre uma perna. Não
encontras refúgio, nem protecção - a não ser que mintas - em cujo caso,
evidentemente, terás construído a tua própria protecção e, poderia
argumentar-se, ter­-te­-ás transformado num político.
Referi-me à morte bastantes vezes esta tarde. Vou citar agora um poema meu
chamado Morte
Onde foi o cadáver encontrado?
Quem encontrou o cadáver?
Estava o cadáver morto quando o encontraram?
Como estava o cadáver encontrado?
Quem era o cadáver?
Quem era o pai ou filha ou irmão
ou tio ou irmã ou mãe ou filho
do morto e abandonado cadáver?
Estava o cadáver morto quando foi abandonado?
Foi o cadáver abandonado?
Por quem tinha sido abandonado?
O cadáver estava nu ou vestido para uma viagem?
O que o fez declarar morto o cadáver?
Declarou morto o cadáver?
Quão bem conheceu o cadáver?
Como soube que o cadáver estava morto?
Lavou o cadáver?
Fechou ambos os seus olhos?
Enterrou o corpo?
Deixou­-o abandonado?
Beijou o cadáver?
Quando olhamos para um espelho pensamos que a imagem que nos enfrenta é
exacta. Mas se nos movemos um milímetro a imagem muda. Estamos na verdade a
olhar para um interminável leque de reflexos. Mas algumas vezes o escritor
tem que estilhaçar o espelho - pois é do outro lado do espelho que a verdade
nos olha.
Creio que, apesar das enormes dificuldades que existem, uma firme,
inquebrantável, feroz determinação intelectual, como cidadãos, para definir
a autêntica verdade das nossas vidas e das nossas sociedades é uma obrigação
crucial que nos diz respeito a todos. É, realmente, obrigatório.
Se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não
temos esperança de restaurar o que está quase perdido para nós - a dignidade
do ser humano.

4 Bitaites:

Anónimo mandou o bitaite...

merda de post!
lá andam estes gajos com a merda da mania do boicote ao blog...

Anónimo mandou o bitaite...

Mata Saudades mas é da tua moça,pois a escreveres para o Blog és uma merda.Que merda de post!Quem lê isto?Só se for um gajo como tu.

matulão mandou o bitaite...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
matulão mandou o bitaite...

Que eu saiba um gajo pode "postar" o que quiser...já vi posts bem piores e não teci qualquer tipo de comentario...
Boicote são os que se escondem sobre a capa do anonimato para mandar as sua farpas...mas vozes de burro....

Quanto a matar saudades...já as matei ou vou matando...eu ainda as tenho para ir matando, não me refugio num qualquer defeito acentuado de mulher como alguns!!!!